Era uma vez

Quando penso sobre como me tornei uma "arteira", vejo um delicado fio perpassando toda minha existência. Na infância eu lia muito, escrevia poemas, desenhava horas a fio, pintava quadros e objetos de madeira. Gostava de ajudar meu pai na sua marcenaria caseira, aprendi crochê e tricô com minhas avós, gostava de brincar de costurar na máquina de minha mãe. No colégio eu adorava as aulas de "Iniciação para o Trabalho", onde experimentávamos diversas técnicas artesanais e, claro, as aulas lindas de  "Educação artística". Na infância também fiz aulas na "Escolinha de artes" da prefeitura de Florianópolis, onde aprendi várias técnicas de arte e artesanato. 

No final do colegial engravidei, entrei na faculdade de Psicologia ainda grávida, tive minha filha aos 18 anos e, mesmo lá, participei de um grupo de teatro, fiz cartazes para os eventos e festas, desenhei nos cadernos de aulas, presenteei amigos com pinturas e desenhos. Fazia desenhos para minha filha, convites e decoração de festas, brincava de aulinhas de artes para crianças. E sempre escrevendo poemas. Na universidade me apaixonei pelo Existencialismo de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir e entrei para o grupo existencialista  Núcleo Castor, o qual faço parte até hoje. Neste grupo fiz o desenho digital dos modelos científicos desenhados por Pedro Bertolino, meu grande professor e mestre.  

Em 2004 criei um "fotolog", uma plataforma precursora do instagram, que surgiu com minha primeira câmera digital, presente de minha irmã Flavia. Nesta época nasceu também meu nickname PoeminhaEm 2007 montei o blog Pátio do tempopara postar fotos e poesias minhas e de outros poetas e imagens de artistas que admiro, pensamentos e coisas da vida cotidiana. Desde então comecei a estudar amadoramente fotografia. 

Aí a vida deu muitas e difíceis voltas, me tornei avó, parei de trabalhar na minha área, a psicologia, e fui morar na casa da praia com meu companheiro. De repente não sabia mais o que fazer no vasto tempo que sobrava. Minha irmã Silvia engravidou de seu segundo filho, na França, e eu quis ficar durante os primeiros meses para ajudar e ter aquele calor de família. Lá na França ela tinha aberto uma espécie de "micro empresa de bonecos de tecido"e foi então que comecei, antes de partir, um curso de artesanato em tecidos, num conceituado ateliê próximo de casa. Ali conheci a professora Fabi Antunes, uma mulher linda e especial, que mudou minha visão do trabalho artesanal e que logo se tornou uma grande amiga e mentora, abrindo as portas para um novo mundo cor-de-rosa, feito de tecidos, linhas, sonhos e fofuras. Em abril de 2014 fui para a França e lá, além de ficar com minha irmã e sobrinhos, comer e beber coisas deliciosas, conhecer cidades lindas, minha irmã me ensinou os primeiros passos do patchwork (esqueci de dizer que ela já havia me dado, ano antes, uma máquina de costuras Brother).  

Depois que eu voltei da França continuei as aulas com a Fabi e comecei a fazer objetos para presentear família e amigos: meus maiores apoiadores. Aos poucos montei em casa um espaço para trabalhar. Meu pequeno atelier foi ganhando forma e fôlego, feito de pedacinhos de amor de cada pessoa que me cerca: mãe, pai, companheiro, filha, genro, netinhas, enteado, irmãs, tias e tios, sobrinhos, amigas da vida e das costuras, ... 

Minha sobrinha, a criativa e irreverente designer gráfica e artista plástica Luísa Hervé, criou a logo e a identidade visual da "Poeminha", enchendo de cor, amor e carinho este nome que adoro, meu "codinome".

Quando a Fabi abriu seu primeiro Ateliê Linha da Magia, além de continuar fazendo aulas, comecei a trabalhar como balconista provisoriamente e lá fiquei por quase um ano. Ali criei também minha primeira "vitrine" e o material gráfico da loja. Em 2018 a Fabi me convidou para dar aulas de costura criativa, um novo desafio e um novo amor. 

Dei aulas até o inicio desta pandemia e desde então estou em distanciamento social juntamente com meu companheiro, minha mãe e nossos cachorros Cacau e Bento e ao lado minha irmã caçula Daniela veio morar, juntamente com seu cachorro Karl Marx, the beagle. Tenho costurado pouco, sinto saudades da minha filha e netinhos, das minhas amigas costureiras, das minhas alunas... da vida enfim. Agora é preciso me reinventar novamente.   

Quando penso sobre como me tornei uma "arteira", o delicado fio que perpassa toda minha existência é Poeminha.

Obrigada a cada um de vocês que fazem parte de minha história.

Que tenhamos muitos e belos sonhos para compartilhar :)

<3

Claudia Félix